Será que ela vai entender isso? Eu acho que seria demais.
-Viveremos muito, diz ela o tempo todo. Questões óbvias do Mundo? Nem pensar!
Aquecimento global, violência, falta de alimento...tá na cara que estamos na maior das merdas, mas isso não vai acontecer conosco, afinal, somos um casal feliz e queremos um filho nosso. Amamos os nossos agregadinhos, entende? Filho dela com outro, filha minha com outra...somos felizes, sim, mas vou perguntar mesmo assim.
- Amor.
- oi.
- eu estava pensando...
- hum
- acho que vou investir num plano de assistência funeral
- Oquê?! É louco mesmo!
- mas, amor, a gente não sabe do dia de amanhã...
- Cara, é muito absurdo...
- mas são só R$ 2,00 por dependente...
Faço uma pausa quando noto a cara de louca possuída que seria lindo se fosse num ato sexual, entende? Violência mesmo! Acaba comigo! Vai, seu cachorro! Hummm....
- você acha que vou viver pra sempre? Pensa no perrengue que será se acontencer...
- CHEGA! Quer fazer algo de bom? Faz um plano de saúde e não um de morte, merda! Vai escolher cor de caixão, flores amarelas ou brancas, com vidro pra mostrar o rosto ou sem vidro? Quer saber de uma coisa? Vou tomar meu banho.
Naquele momento pensei na minha posição de homem da casa e, dias depois, fiz um plano de saúde pra mim. Caro pra mim, cobria algumas coisas legais tipo enfermaria. Legal, se eu me fuder fico com no máximo mais 3 fudidos do meu lado. Boa!!!
Meses se passaram e somos um casal lindo de novo.
Toca o telefone da minha casa.
- Alô
- Boa noite, senhor...o senhor conheço a senhora Sônia Albuquerque de Alcântara? Meu Deus!...ele disse o nome completo...(boca seca)...tomara que seja dívida...
- si, sim...conheço, por que?
- Olha, senhor...ela se envolveu num acidente grave...algumas pessoas foram atropeladas...inclusive ela e...bom...ela não resistiu, senhor. Infelizmente veio a óbito.
Enquanto ele me dava as informações, eu ia sentindo um fade out em meu ouvido, comecei a não ouvi-lo mais...sentei depois que anotei tudo, desliguei o telefone de leve em sua cara e nem chorei. Fiquei ali uns minutos, levantei e saí.
Total do enterro: R$ 2,000.00. Claro que não tinha esse dinheiro sobrando, claro que tive que cancelar meu plano de saúde com enfermaria e pedir dinheiro emprestado.
- Amor?
- sim, sou eu
- o que houve...
- calma...não fala nada agora. Vem comigo
- pra onde? Como?...
- Você agora está bem, meu amor e comigo
- O quê?! Peraí...e as crianças? O que é isso! Aquele sou eu no chão!
Ah, o amor...lindo e, agora sim, duradouro mesmo. O egoísmo e a loucura ficaram lá, com nossos filhos e nossos pais brigando e querendo achar culpados. Ah, que se dane tudo. Decidam no tapa: plano de saúde ou plano de morte?
Marcelo Daguerre
terça-feira, julho 29, 2008
HOMME
Trancou a bicicleta no poste em frente ao prédio onde trabalhava; esfregou uma mão na outra para amenizar as manchas de graxa; tirou a camisa da mochila e jogou-a sobre o corpo suado. Entrou no prédio no mesmo momento que sua colega, esta vestida e maquiada para mais um dia de batente no escritório. Que bom que sou homem, ele pensou, olhando o painel do elevador. Mas não havia se dado conta do próprio pensamento. Como assim? Não pensou no que pensou? Não, não pensou. Apenas... pensou.
Horas depois, estava sentado num boteco almoçando isca de fígado acebolado com feijão, arroz, salada de alface e tomate, farofa e duas ou três batatas cozidas. Ao seu lado, sentou-se um sujeito negro, com roupas velhas e sujo de tinta de parede. Um aceno de cabeça foi o bastante para dizer, respeitosamente, que iria se sentar também àquela mesa. Algo parecido se deu na hora de pegar a garrafa de pimenta e em seguida o paliteiro: nenhuma palavra foi dita e, no entanto, a comunicação era perfeita. Que bom que sou homem, ele pensou novamente, agora dando-se conta da sensível formulação. Ficou contente com a frase tão simples quanto objetiva. Pediu uma caneta ao dono do boteco, puxou de um copo de geléia uma folha grossa que servia de guardanapo e começou a anotar a frase: que bom que... Parou no meio ao notar que o negro, que espalitava os dentes com vigor, tentava ler o que ele escrevia. Então, devolveu a caneta, amassou o papel e foi embora, pensando em anotar aquela frase quando estivesse a sós.
Horas depois, estava sentado num boteco almoçando isca de fígado acebolado com feijão, arroz, salada de alface e tomate, farofa e duas ou três batatas cozidas. Ao seu lado, sentou-se um sujeito negro, com roupas velhas e sujo de tinta de parede. Um aceno de cabeça foi o bastante para dizer, respeitosamente, que iria se sentar também àquela mesa. Algo parecido se deu na hora de pegar a garrafa de pimenta e em seguida o paliteiro: nenhuma palavra foi dita e, no entanto, a comunicação era perfeita. Que bom que sou homem, ele pensou novamente, agora dando-se conta da sensível formulação. Ficou contente com a frase tão simples quanto objetiva. Pediu uma caneta ao dono do boteco, puxou de um copo de geléia uma folha grossa que servia de guardanapo e começou a anotar a frase: que bom que... Parou no meio ao notar que o negro, que espalitava os dentes com vigor, tentava ler o que ele escrevia. Então, devolveu a caneta, amassou o papel e foi embora, pensando em anotar aquela frase quando estivesse a sós.
sexta-feira, julho 18, 2008
Nova Fase: Give Peace a Chance
Quinta, 17h30
A lua estava magnífica. Voltava pra casa de bicicleta pela Lagoa, quando a vi, na altura do heliporto, prateadíssima por sobre a Pedra da Gávea. Não tinha como não parar e fazer um minuto de silêncio diante daquela maravilha. Tentei tirar uma foto com meu celular, mas não deu certo. Melhor assim, pensei, fotografando com meus olhos e registrando no meu coração aquele momento.
Continuei meu percurso até em casa, passando pelo local onde, às cinco e meia da manhã daquele mesmo dia, dois policiais foram metralhados por bandidos que queriam roubar suas armas. Havia uma multidão no que parecia ser uma solenidade em homenagem aos mortos, com cartaz, cruzes fincadas num canteiro e flores depoistadas no local onde a viatura costumava ficar estacionada.
Na noite anterior, passei a pé por aqueles dois policiais e senti medo deles. Passei tentando não olhá-los, não encará-los, para que eles não achassem que eu estava com alguma intenção perversa, como, por exemplo, matá-los para lhes roubar as armas.
A lua estava magnífica. Voltava pra casa de bicicleta pela Lagoa, quando a vi, na altura do heliporto, prateadíssima por sobre a Pedra da Gávea. Não tinha como não parar e fazer um minuto de silêncio diante daquela maravilha. Tentei tirar uma foto com meu celular, mas não deu certo. Melhor assim, pensei, fotografando com meus olhos e registrando no meu coração aquele momento.
Continuei meu percurso até em casa, passando pelo local onde, às cinco e meia da manhã daquele mesmo dia, dois policiais foram metralhados por bandidos que queriam roubar suas armas. Havia uma multidão no que parecia ser uma solenidade em homenagem aos mortos, com cartaz, cruzes fincadas num canteiro e flores depoistadas no local onde a viatura costumava ficar estacionada.
Na noite anterior, passei a pé por aqueles dois policiais e senti medo deles. Passei tentando não olhá-los, não encará-los, para que eles não achassem que eu estava com alguma intenção perversa, como, por exemplo, matá-los para lhes roubar as armas.
terça-feira, julho 15, 2008
fragmento de música (ainda sem título)
Já descobriram água congelada em Marte
Já descobriram água congelada em Marte
Mas eu me pergunto: será que existe vida inteligente
No coração da gente (No coração da gente)
Mas eu me pergunto: será que existe vida inteligente
No coração da gente (No coração da gente)
E por aí vai...
Já descobriram água congelada em Marte
Mas eu me pergunto: será que existe vida inteligente
No coração da gente (No coração da gente)
Mas eu me pergunto: será que existe vida inteligente
No coração da gente (No coração da gente)
E por aí vai...
terça-feira, junho 03, 2008
quarta-feira, maio 28, 2008
feliz idade
Nem oito da manhã e ele de pé. E tinha ido dormir às três. Ia do quarto para o banheiro, quando viu o menininho sentado no sofá da sala, rindo sozinho.
Do que você está rindo, quis saber. À curiosidade juntava-se as remelas e a boca pastosa da noite mal dormida.
O menino de chupeta na boca, respondeu: cosquinha, apontando para o próprio joelho, o qual ele acariciava com a pontinha da orelha de um cachorro de pano.
Talvez uma xícara de café quente tenha o mesmo efeito, ele pensou, sentando-se ao lado do menino.
Do que você está rindo, quis saber. À curiosidade juntava-se as remelas e a boca pastosa da noite mal dormida.
O menino de chupeta na boca, respondeu: cosquinha, apontando para o próprio joelho, o qual ele acariciava com a pontinha da orelha de um cachorro de pano.
Talvez uma xícara de café quente tenha o mesmo efeito, ele pensou, sentando-se ao lado do menino.
terça-feira, abril 29, 2008
O Gato
Dormia um sono profundo quando sentiu uma pequena presença, quente e roliça, aninhada nas dobras de suas pernas (dormia solitariamente em conchinha). Não se assustou com aquilo, o que era uma novidade, pois costumava se sobressaltar com a própria sombra. Teve até o cuidado de levantar devagar para não machucar o que quer que fosse aquele... ser. No breu do quarto completamente vedado (porta fechada e janela com quebra-luz), pode ver apenas os olhos brilhantes do animal. Sim, um animal... Um gato.
Não tinha gatos, não podia tê-los: era alérgica a pelos, fumaça, poeira, pólen... Mas além de não ter sentido medo, não sentiu também nenhum mal-estar com a felina presença.
Será que tinha leite em casa, pensou preocupada. Mas o gato já tinha baixado novamente a cabeça junto às patas dianteiras e fechado os olhos em tranqüilo repouso. Da mesma forma, ela escorreu suas costas da parede para a cama e voltou a cobrir-se. Rapidamente teve a sensação de estar sendo tomada pelo inconsciente, o que lhe causou imenso prazer. Ainda teve tempo de pensar que aquela era a primeira noite, desde sua separação, que conseguia dormia de verdade. A primeira vez que não lhe incomodava o fato de estar absolutamente só consigo mesma.
Não tinha gatos, não podia tê-los: era alérgica a pelos, fumaça, poeira, pólen... Mas além de não ter sentido medo, não sentiu também nenhum mal-estar com a felina presença.
Será que tinha leite em casa, pensou preocupada. Mas o gato já tinha baixado novamente a cabeça junto às patas dianteiras e fechado os olhos em tranqüilo repouso. Da mesma forma, ela escorreu suas costas da parede para a cama e voltou a cobrir-se. Rapidamente teve a sensação de estar sendo tomada pelo inconsciente, o que lhe causou imenso prazer. Ainda teve tempo de pensar que aquela era a primeira noite, desde sua separação, que conseguia dormia de verdade. A primeira vez que não lhe incomodava o fato de estar absolutamente só consigo mesma.
sábado, março 22, 2008
A escova azul
Duas semanas, ou três semanas? Era o início da terceira semana. Para ele, a compra de duas escovas de dente, uma rosa para ela, uma azul para ele, não tinha relação direta com o tempo em que estavam juntos (tempo este que coincidia com o tempo que eles se conheciam). Pareceu-lhe natural colocar a escova rosa no copo de requeijão que ficava na prateleira de seu banheiro. Da mesma forma que lhe parecia natural mostrar a ela a escova azul, explicando que era para ficar em sua casa. Mas a freada brusca do carro naquela noite chuvosa mostrou que para ela a coisa não se dava bem assim.
O que é uma escova de dentes? Em princípio um simples objeto de higiene bucal. Por que eles deveriam continuar compartilhando as mesmas escovas cada vez que um dormia na casa do outro? Em duas semanas de relação, só não dormiram juntos três noites. Por que, então, cada um não podia ter sua própria escova na casa do outro?
Voltavam do cinema e haviam passado na casa dele para pegar a mochila com tudo o que ele iria precisar no dia seguinte, inclusive a escova de dente azul, comprada junto com a rosa naquela tarde.
- Comprei uma coisa pra deixar na sua casa.
O motorista do carro que vinha logo atrás deles precisou de muita habilidade para desviar do carro dela, principalmente porque a pista estava molhada da chuva. Para ele a reação da namorada (?!) foi desmedida, quase teatral. Depois dos xingamentos do habilidoso motorista do outro carro, o silêncio imperou, quebrado apenas pelo barulho do limpador de pára-brisa e das grossas gotas de chuva que bombardeavam a lataria do automóvel.
Minuto e meio depois, ela ligou novamente o carro, acionou a seta e pegou um retorno.
- Melhor cada um dormir na sua casa.
O que ele poderia dizer? Em pouco tempo o carro chegou à frente de seu prédio. Ele saltou e imediatamente um zumbido eletrônico fez com que o portão se abrisse (o porteiro sabia de quem se tratava). Entretanto, apesar da chuva, ele não entrou. Esperou que ela fizesse a volta e decesse a rua, até desaparecer na primeira curva à direita. Então, ele olhou para a escova de dente azul que estava em sua mão e se lembrou do comercial que dizia que aquela marca era recomendada pelos dentistas.
Melhor seria se fosse recomendada pelos psicólogos, foi o que pensou antes de entrar.
O que é uma escova de dentes? Em princípio um simples objeto de higiene bucal. Por que eles deveriam continuar compartilhando as mesmas escovas cada vez que um dormia na casa do outro? Em duas semanas de relação, só não dormiram juntos três noites. Por que, então, cada um não podia ter sua própria escova na casa do outro?
Voltavam do cinema e haviam passado na casa dele para pegar a mochila com tudo o que ele iria precisar no dia seguinte, inclusive a escova de dente azul, comprada junto com a rosa naquela tarde.
- Comprei uma coisa pra deixar na sua casa.
O motorista do carro que vinha logo atrás deles precisou de muita habilidade para desviar do carro dela, principalmente porque a pista estava molhada da chuva. Para ele a reação da namorada (?!) foi desmedida, quase teatral. Depois dos xingamentos do habilidoso motorista do outro carro, o silêncio imperou, quebrado apenas pelo barulho do limpador de pára-brisa e das grossas gotas de chuva que bombardeavam a lataria do automóvel.
Minuto e meio depois, ela ligou novamente o carro, acionou a seta e pegou um retorno.
- Melhor cada um dormir na sua casa.
O que ele poderia dizer? Em pouco tempo o carro chegou à frente de seu prédio. Ele saltou e imediatamente um zumbido eletrônico fez com que o portão se abrisse (o porteiro sabia de quem se tratava). Entretanto, apesar da chuva, ele não entrou. Esperou que ela fizesse a volta e decesse a rua, até desaparecer na primeira curva à direita. Então, ele olhou para a escova de dente azul que estava em sua mão e se lembrou do comercial que dizia que aquela marca era recomendada pelos dentistas.
Melhor seria se fosse recomendada pelos psicólogos, foi o que pensou antes de entrar.
terça-feira, janeiro 29, 2008
O quadro
A primeira vez que entrei no apartamento dela, fiquei encantado com um quadro muito colorido que decorava a sala, pendurado sobre o sofá branco. A cor predominante é o vermelho, mas destacam-se o amarelo, o laranja e o rosa. O único objeto representado é um carro antigo, anos 50, que está em movimento acionado pelas cores que o compõem - todo o quadro está em movimento provocado pela explosão de cores e a massa de tinta em palhetadas ondulantes. Acertei de imediato que se tratava de uma pintura de Rubens Gerchman, porque sempre o admirei e me deleitei com seu estilo de poética Pop (retirei o quadro da parede e vi a assinatura do pintor na parte de trás).
Rubens Gerchman faleceu às seis horas da manhã de hoje, coincidindo com outra pequena-grande-particular perda.
Rubens Gerchman faleceu às seis horas da manhã de hoje, coincidindo com outra pequena-grande-particular perda.
Origami
Estou com um bebê no colo – um menino rosado e lourinho –, olhando pela janela de um apartamento que fica num andar muito alto. Ao meu lado, minha mãe. O bebê sai do meu colo para brincar no parapeito da janela e cai. Desesperado, consigo agarrar o bebê pela roupa; olho para minha mãe e peço ajuda, mas ela simplesmente não se mexe. Consigo salvar a criança e vou com ele ao chão, abraçando-a com firmeza e cuidado, acariciando sua cabecinha, olhando bem nos seus olhos e dizendo: “Está tudo bem, está tudo bem”. Pergunto a minha mãe por que ela não me ajudou, mas, sem dizer uma palavra, compreendo qual a sua intenção: fazer o bebê perceber que parapeito não é lugar para se brincar.
Agora estou num espaço aberto, um campo, perfeito para piqueniques. Estão presentes, além de minha mãe, meu irmão Marcelo – mais novo do que ele é hoje em dia –, minhas irmãs, Mônica e Liana, e Edson, marido de Mônica. Edson e eu estamos brincando com uma gaivota que ele fez para mim. Há também um carro branco, que pertence a Edson, com dois origamis em forma de pássaro presos na lateral do carro: um rosa, de Mônica, e outro feito de jornal, de Edson. Este último parece estar meio rasgado e emendado com fita durex. Num dado momento, a gaivota pára longe, perto do bebê, que está começando a aprender a andar. Há um cachorro por perto, que parece pertencer a algum de nós. Mostro para meu irmão que vou fazer com que o cachorro pegue a gaivota para mim e lhe dou uma ordem: “Pega”. Mas o cão entende que é para avançar no bebê e rosna para ele. Consigo fazer o animal entender que não é para machucar a criança, tanto que em seguida aparece um outro cachorro ameaçando o pequenino e o nosso cão lhe morde a perna.
Agora estou num espaço aberto, um campo, perfeito para piqueniques. Estão presentes, além de minha mãe, meu irmão Marcelo – mais novo do que ele é hoje em dia –, minhas irmãs, Mônica e Liana, e Edson, marido de Mônica. Edson e eu estamos brincando com uma gaivota que ele fez para mim. Há também um carro branco, que pertence a Edson, com dois origamis em forma de pássaro presos na lateral do carro: um rosa, de Mônica, e outro feito de jornal, de Edson. Este último parece estar meio rasgado e emendado com fita durex. Num dado momento, a gaivota pára longe, perto do bebê, que está começando a aprender a andar. Há um cachorro por perto, que parece pertencer a algum de nós. Mostro para meu irmão que vou fazer com que o cachorro pegue a gaivota para mim e lhe dou uma ordem: “Pega”. Mas o cão entende que é para avançar no bebê e rosna para ele. Consigo fazer o animal entender que não é para machucar a criança, tanto que em seguida aparece um outro cachorro ameaçando o pequenino e o nosso cão lhe morde a perna.
quarta-feira, dezembro 19, 2007
Perspectiva
Ela me aprisionou. E não somente porque minha respiração, meus humores e as batidas do meu coração agora dependem das fases da lua de seu signo – o que já seria motivo suficiente para o uso tópico de terapias, álcool, religiões e outras drogas pesadas. Ela me aprisionou o olhar, estou sob sua perspectiva, a mercê dos seus gostos, em função das suas opiniões: o vinho com a carne, o sapato com a meia, a barba por fazer, o modelo de óculos escuros, o filme, a peça de teatro, o grupo de rock, os temperos da salada... E mais: a beleza de certos corpos, a vulgaridade de certas mulheres, a falta de bares especializados em drinks no Rio de Janeiro e a importância de um pouco de água do pote de azeitona na preparação de um bom martini.
Penso em me despedir gentilmente e sair de sua vida, ou desaparecer à francesa, mas são só pensamentos que nada mais fazem alem de me corroer na madrugada. Diante dela, tais pensamentos são mais inofensivos que um poodle.
Mas há um lobo adormecido, eu não me engano. Ontem mesmo senti uma de suas unhas me arranhar o estômago.
Penso em me despedir gentilmente e sair de sua vida, ou desaparecer à francesa, mas são só pensamentos que nada mais fazem alem de me corroer na madrugada. Diante dela, tais pensamentos são mais inofensivos que um poodle.
Mas há um lobo adormecido, eu não me engano. Ontem mesmo senti uma de suas unhas me arranhar o estômago.
sexta-feira, dezembro 14, 2007
Fotografia
Debaixo de uma chuva constante; num bairro residencial; numa rua de pouco movimento; ia um homem numa bicicleta.
Na garupa, uma menina em roupa de escola, segurando um guarda-chuva preto. Agarrada à cintura do homem, a menina mantinha o guarda-chuva mais para a cabeça dele do que para seu próprio corpinho magro, que assim, não só recebia as gotas de lama atirados pela roda traseira da bicicleta, como também as muitas gotas que vinham do céu.
Agarrada à cintura do homem, com o rosto colado em suas costas, a menina sorria.
Na garupa, uma menina em roupa de escola, segurando um guarda-chuva preto. Agarrada à cintura do homem, a menina mantinha o guarda-chuva mais para a cabeça dele do que para seu próprio corpinho magro, que assim, não só recebia as gotas de lama atirados pela roda traseira da bicicleta, como também as muitas gotas que vinham do céu.
Agarrada à cintura do homem, com o rosto colado em suas costas, a menina sorria.
sábado, novembro 17, 2007
Fios de lembrança
Por um lado, não era muito o que lhe havia ficado daquela noite. O ambiente era muito escuro, como a maioria das boates e demais casas noturnas; a música era barulhenta, o som estava desnecessariamente alto e os amplificadores estavam em péssimo estado. Assim, o rosto daquele homem não lhe foi possível fixar; nem o timbre de sua voz e nem as palavras que aquela boca pronunciaram ao pé de seu ouvido. Os beijos foram os melhores de sua vida, mas não recordava se os lábios dele eram finos ou bem delineados. Seus olhos ardiam como brasa, mas de cor eram? E a cor da pele? E a quantidade de pelos nos braços? A barriga era firme, mas o umbigo era pequeno e produndo como o seu? Qual o tamanho do seu pé? As unhas eram aparadas?
Quando ele pôs a mão gentilmente dentro de sua calcinha, ela pode perceber os dedos grossos e a pele fina; quando ela pôs a mão dentro das calças dele, sentiu um pau latejante, quente e um pouco melado. Mas e o cheiro? E o gosto? O peso? Tamanho? De tudo...
Por que, Deus, teve que sair, ir embora, se afastar e ver sumir aquele encontro como o violento despertar de um sonho?
...
Sentada no banco do metrô, ela olhava para todos os homens que entravam e saíam. Olhava também os que permaneciam dentro, sentados, em pé ou escorados. E curiosamente lhe surgiu uma certeza: ninguém tinha cabelos tão bonitos.
Quando ele pôs a mão gentilmente dentro de sua calcinha, ela pode perceber os dedos grossos e a pele fina; quando ela pôs a mão dentro das calças dele, sentiu um pau latejante, quente e um pouco melado. Mas e o cheiro? E o gosto? O peso? Tamanho? De tudo...
Por que, Deus, teve que sair, ir embora, se afastar e ver sumir aquele encontro como o violento despertar de um sonho?
...
Sentada no banco do metrô, ela olhava para todos os homens que entravam e saíam. Olhava também os que permaneciam dentro, sentados, em pé ou escorados. E curiosamente lhe surgiu uma certeza: ninguém tinha cabelos tão bonitos.
quinta-feira, novembro 08, 2007
Letra para um Blues
Quando tudo começa
Você toca um pouco
Você toca um vez
E você toca mais
No lugar onde as cordes batem
Forma um calo
Uma pele grossa na ponta dos dedos
Nesse lugar forma um calo
E é quando tudo começa
É quando tudo realmente começa
Você ama um pouco
Você ama uma vez
E você ama mais
No lugar onde o amor bate
Forma um calo
Uma pele grossa que envolve o coração
Nesse lugar forma um calo
E é quando tudo começa
É quando tudo realmente começa
Você toca um pouco
Você toca um vez
E você toca mais
No lugar onde as cordes batem
Forma um calo
Uma pele grossa na ponta dos dedos
Nesse lugar forma um calo
E é quando tudo começa
É quando tudo realmente começa
Você ama um pouco
Você ama uma vez
E você ama mais
No lugar onde o amor bate
Forma um calo
Uma pele grossa que envolve o coração
Nesse lugar forma um calo
E é quando tudo começa
É quando tudo realmente começa
domingo, outubro 28, 2007
Notas sobre a psicobiologia dos peixes
1. Um aquário sobre a mesa
Um pequeno aquário, com um único peixinho vermelho dentro.
2. O aquário cai no chão
Não está claro o que teria provocado a queda do aquário - alguém o teria empurrado? (a sala estava vazia) Um terremoto teria feito a mesa balançar? (terremoto no Rio de Janeiro?) Um vento? (todas as janelas estavam fechadas) O próprio peixinho teria empurrado o aquário fazendo uso de uma força indizível? (talvez a opção mais plausível)
3. O aquário espatifado
O chão molhado; cacos de vidro pra todos os lados; o peixinho agonizando, agonizando, agoni...
- A situação do peixe era a seguinte: ele vivia fora de seu habitat natural, confinado num espaço mínimo, desumano (os pássaros engaiolados sabem do que estou falando), alimentado com uma ração barata pela empregada da casa, que não tinha obrigação de entender nada sobre peixes. A criança que o ganhara há muito que não se interessava mais por ele, e os outros habitantes da casa nunca se interessaram mesmo.
Se foi a casualidade que derrubou o aquário da mesa, pode-se dizer que o destino não fez mais que selar a sorte daquele triste animal, contribuindo, por assim dizer, para o fim mais rápido de sua medíocre existência. Se foi o próprio peixinho que, com força indizível, derrubou o aquário, podemos especular que ele o fez por dois motivos prováveis:
a) Para encerrar, ele mesmo, com sua agonia de vivente sem sentido;
b) Acreditando que, ao quebrar o aquário, ele estaria livre para fugir daquela vida.
Em ambos os casos, devemos considerar o esforço, o engenho e a coragem do peixinho. Afinal, quem já ouviu falar de um peixe que tenha derrubado o próprio aquário da mesa? A diferença entre a primeira e a segunda opção está na intenção, sem dúvida, mas também no maior ou menor grau de conhecimento que o peixe teria sobre sua própria natureza. Ter empurrado o aquário para cometer suicídio mostraria que o peixe sabia das consequências de seu ato. Mas se ele empurrou o aquário com o intuito de se libertar, significa um desconhecimento de si mesmo, total ignorância de sua natureza, de suas limitações. Porque, nesse caso, o peixe não saberia que, quebrando o aquário, ele expulsaria e espalharia o meio aquoso necessário a sua sobrevivência ("Quebrar o aquário", ele teria pensado, "romper as cercas que me aprisionam, desfazer os limites". E morreu).
4. A criança chega ao local da tragédia
Num ato de lamento e compaixão, a menina dona do peixe recolhe o bichinho do chão. Quer dar a ele um enterro digno, com caixão de pote de margarina (ainda está cheio, mas a mãe vai entender que foi por uma boa causa), cruz de palito de sorvete (terá que tomar dois sorvetes de uma vez, mas é pelo peixinho) e vela de bolo de aniversário (seu aniversário foi há poucas semanas atrás).
5. O gato da menina
Um dos motivos que explicam o desinteresse da menina pelo peixe é que ela ganhou um gato de presente de aniversário.
6. A menina decide brincar com seu gato
Peixe é bonito, mas não dá pra brincar com ele. Isso também explica o desinsteresse da menina. Gato é bonito, dá pra brincar, passar a mão... (uma vez, ela quis tirar o peixinho do aquário pra passa os dedos pelo seu corpinho. O pai chegou bem na hora em que a meina estava tentando catar o bicho da água. Mas agora, pensando bem, se o pai tivesse chegado na sala um pouco depois, com o peixinho já fora do aquário, na mão da menina, o pobre animal teria percebido que fora do meio aquoso ele não conseguiria respirar. Isso teria feito com que ele desistisse da idéia de empurrar o aquário - claro, supondo que foi ele quem empurrou a bolota de vidro e pelo motivo "b", ou seja, para ver-se livre). Ela não vai nunca deixar de brincar e de cuidar de seu gatinho, isso ela jurou para seu pai e foi assim que o convenceu a comprar o bichano.
7. O gato come o peixe
A brincadeira da menina com o gato foi assim: "Tóoum, dúvido que você pegue esse peixinho com a boca. Du-vi-de-o-dó!" E atirou o peixe na cara do gato. Depois de piscar cinquenta vezes com o olho direito - onde a cabeça do peixe bateu - Tom deu uma cheirada no cadáver e o engoliu, não sem antes dar umas boas mastigadas.
O peixe já estava morto mesmo. E o gatinho parecia faminto. Ela estava a caminho do enterro, mas... Ah, peixe não tem alma. Ou tem?
8. A mulher no divã
A mulher conta ao analista um fato curioso de sua infância, quando certa vez seu aquário despencou, sozinho, da mesa da sala. "Peixe tem alma?", ela pergunta ao analista. "Só Deus sabe", ele responde brincando (é um analista muito bem humorado, diga-se de passagem).
Um pequeno aquário, com um único peixinho vermelho dentro.
2. O aquário cai no chão
Não está claro o que teria provocado a queda do aquário - alguém o teria empurrado? (a sala estava vazia) Um terremoto teria feito a mesa balançar? (terremoto no Rio de Janeiro?) Um vento? (todas as janelas estavam fechadas) O próprio peixinho teria empurrado o aquário fazendo uso de uma força indizível? (talvez a opção mais plausível)
3. O aquário espatifado
O chão molhado; cacos de vidro pra todos os lados; o peixinho agonizando, agonizando, agoni...
- A situação do peixe era a seguinte: ele vivia fora de seu habitat natural, confinado num espaço mínimo, desumano (os pássaros engaiolados sabem do que estou falando), alimentado com uma ração barata pela empregada da casa, que não tinha obrigação de entender nada sobre peixes. A criança que o ganhara há muito que não se interessava mais por ele, e os outros habitantes da casa nunca se interessaram mesmo.
Se foi a casualidade que derrubou o aquário da mesa, pode-se dizer que o destino não fez mais que selar a sorte daquele triste animal, contribuindo, por assim dizer, para o fim mais rápido de sua medíocre existência. Se foi o próprio peixinho que, com força indizível, derrubou o aquário, podemos especular que ele o fez por dois motivos prováveis:
a) Para encerrar, ele mesmo, com sua agonia de vivente sem sentido;
b) Acreditando que, ao quebrar o aquário, ele estaria livre para fugir daquela vida.
Em ambos os casos, devemos considerar o esforço, o engenho e a coragem do peixinho. Afinal, quem já ouviu falar de um peixe que tenha derrubado o próprio aquário da mesa? A diferença entre a primeira e a segunda opção está na intenção, sem dúvida, mas também no maior ou menor grau de conhecimento que o peixe teria sobre sua própria natureza. Ter empurrado o aquário para cometer suicídio mostraria que o peixe sabia das consequências de seu ato. Mas se ele empurrou o aquário com o intuito de se libertar, significa um desconhecimento de si mesmo, total ignorância de sua natureza, de suas limitações. Porque, nesse caso, o peixe não saberia que, quebrando o aquário, ele expulsaria e espalharia o meio aquoso necessário a sua sobrevivência ("Quebrar o aquário", ele teria pensado, "romper as cercas que me aprisionam, desfazer os limites". E morreu).
4. A criança chega ao local da tragédia
Num ato de lamento e compaixão, a menina dona do peixe recolhe o bichinho do chão. Quer dar a ele um enterro digno, com caixão de pote de margarina (ainda está cheio, mas a mãe vai entender que foi por uma boa causa), cruz de palito de sorvete (terá que tomar dois sorvetes de uma vez, mas é pelo peixinho) e vela de bolo de aniversário (seu aniversário foi há poucas semanas atrás).
5. O gato da menina
Um dos motivos que explicam o desinteresse da menina pelo peixe é que ela ganhou um gato de presente de aniversário.
6. A menina decide brincar com seu gato
Peixe é bonito, mas não dá pra brincar com ele. Isso também explica o desinsteresse da menina. Gato é bonito, dá pra brincar, passar a mão... (uma vez, ela quis tirar o peixinho do aquário pra passa os dedos pelo seu corpinho. O pai chegou bem na hora em que a meina estava tentando catar o bicho da água. Mas agora, pensando bem, se o pai tivesse chegado na sala um pouco depois, com o peixinho já fora do aquário, na mão da menina, o pobre animal teria percebido que fora do meio aquoso ele não conseguiria respirar. Isso teria feito com que ele desistisse da idéia de empurrar o aquário - claro, supondo que foi ele quem empurrou a bolota de vidro e pelo motivo "b", ou seja, para ver-se livre). Ela não vai nunca deixar de brincar e de cuidar de seu gatinho, isso ela jurou para seu pai e foi assim que o convenceu a comprar o bichano.
7. O gato come o peixe
A brincadeira da menina com o gato foi assim: "Tóoum, dúvido que você pegue esse peixinho com a boca. Du-vi-de-o-dó!" E atirou o peixe na cara do gato. Depois de piscar cinquenta vezes com o olho direito - onde a cabeça do peixe bateu - Tom deu uma cheirada no cadáver e o engoliu, não sem antes dar umas boas mastigadas.
O peixe já estava morto mesmo. E o gatinho parecia faminto. Ela estava a caminho do enterro, mas... Ah, peixe não tem alma. Ou tem?
8. A mulher no divã
A mulher conta ao analista um fato curioso de sua infância, quando certa vez seu aquário despencou, sozinho, da mesa da sala. "Peixe tem alma?", ela pergunta ao analista. "Só Deus sabe", ele responde brincando (é um analista muito bem humorado, diga-se de passagem).
Diferença entre os gêneros
Os homens olham pra bunda das outras mulhers
Como garotos
As mulheres trepam com outros homens
Como mulheres
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sábado, outubro 27, 2007
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