Dormia um sono profundo quando sentiu uma pequena presença, quente e roliça, aninhada nas dobras de suas pernas (dormia solitariamente em conchinha). Não se assustou com aquilo, o que era uma novidade, pois costumava se sobressaltar com a própria sombra. Teve até o cuidado de levantar devagar para não machucar o que quer que fosse aquele... ser. No breu do quarto completamente vedado (porta fechada e janela com quebra-luz), pode ver apenas os olhos brilhantes do animal. Sim, um animal... Um gato.
Não tinha gatos, não podia tê-los: era alérgica a pelos, fumaça, poeira, pólen... Mas além de não ter sentido medo, não sentiu também nenhum mal-estar com a felina presença.
Será que tinha leite em casa, pensou preocupada. Mas o gato já tinha baixado novamente a cabeça junto às patas dianteiras e fechado os olhos em tranqüilo repouso. Da mesma forma, ela escorreu suas costas da parede para a cama e voltou a cobrir-se. Rapidamente teve a sensação de estar sendo tomada pelo inconsciente, o que lhe causou imenso prazer. Ainda teve tempo de pensar que aquela era a primeira noite, desde sua separação, que conseguia dormia de verdade. A primeira vez que não lhe incomodava o fato de estar absolutamente só consigo mesma.
terça-feira, abril 29, 2008
sábado, março 22, 2008
A escova azul
Duas semanas, ou três semanas? Era o início da terceira semana. Para ele, a compra de duas escovas de dente, uma rosa para ela, uma azul para ele, não tinha relação direta com o tempo em que estavam juntos (tempo este que coincidia com o tempo que eles se conheciam). Pareceu-lhe natural colocar a escova rosa no copo de requeijão que ficava na prateleira de seu banheiro. Da mesma forma que lhe parecia natural mostrar a ela a escova azul, explicando que era para ficar em sua casa. Mas a freada brusca do carro naquela noite chuvosa mostrou que para ela a coisa não se dava bem assim.
O que é uma escova de dentes? Em princípio um simples objeto de higiene bucal. Por que eles deveriam continuar compartilhando as mesmas escovas cada vez que um dormia na casa do outro? Em duas semanas de relação, só não dormiram juntos três noites. Por que, então, cada um não podia ter sua própria escova na casa do outro?
Voltavam do cinema e haviam passado na casa dele para pegar a mochila com tudo o que ele iria precisar no dia seguinte, inclusive a escova de dente azul, comprada junto com a rosa naquela tarde.
- Comprei uma coisa pra deixar na sua casa.
O motorista do carro que vinha logo atrás deles precisou de muita habilidade para desviar do carro dela, principalmente porque a pista estava molhada da chuva. Para ele a reação da namorada (?!) foi desmedida, quase teatral. Depois dos xingamentos do habilidoso motorista do outro carro, o silêncio imperou, quebrado apenas pelo barulho do limpador de pára-brisa e das grossas gotas de chuva que bombardeavam a lataria do automóvel.
Minuto e meio depois, ela ligou novamente o carro, acionou a seta e pegou um retorno.
- Melhor cada um dormir na sua casa.
O que ele poderia dizer? Em pouco tempo o carro chegou à frente de seu prédio. Ele saltou e imediatamente um zumbido eletrônico fez com que o portão se abrisse (o porteiro sabia de quem se tratava). Entretanto, apesar da chuva, ele não entrou. Esperou que ela fizesse a volta e decesse a rua, até desaparecer na primeira curva à direita. Então, ele olhou para a escova de dente azul que estava em sua mão e se lembrou do comercial que dizia que aquela marca era recomendada pelos dentistas.
Melhor seria se fosse recomendada pelos psicólogos, foi o que pensou antes de entrar.
O que é uma escova de dentes? Em princípio um simples objeto de higiene bucal. Por que eles deveriam continuar compartilhando as mesmas escovas cada vez que um dormia na casa do outro? Em duas semanas de relação, só não dormiram juntos três noites. Por que, então, cada um não podia ter sua própria escova na casa do outro?
Voltavam do cinema e haviam passado na casa dele para pegar a mochila com tudo o que ele iria precisar no dia seguinte, inclusive a escova de dente azul, comprada junto com a rosa naquela tarde.
- Comprei uma coisa pra deixar na sua casa.
O motorista do carro que vinha logo atrás deles precisou de muita habilidade para desviar do carro dela, principalmente porque a pista estava molhada da chuva. Para ele a reação da namorada (?!) foi desmedida, quase teatral. Depois dos xingamentos do habilidoso motorista do outro carro, o silêncio imperou, quebrado apenas pelo barulho do limpador de pára-brisa e das grossas gotas de chuva que bombardeavam a lataria do automóvel.
Minuto e meio depois, ela ligou novamente o carro, acionou a seta e pegou um retorno.
- Melhor cada um dormir na sua casa.
O que ele poderia dizer? Em pouco tempo o carro chegou à frente de seu prédio. Ele saltou e imediatamente um zumbido eletrônico fez com que o portão se abrisse (o porteiro sabia de quem se tratava). Entretanto, apesar da chuva, ele não entrou. Esperou que ela fizesse a volta e decesse a rua, até desaparecer na primeira curva à direita. Então, ele olhou para a escova de dente azul que estava em sua mão e se lembrou do comercial que dizia que aquela marca era recomendada pelos dentistas.
Melhor seria se fosse recomendada pelos psicólogos, foi o que pensou antes de entrar.
terça-feira, janeiro 29, 2008
O quadro
A primeira vez que entrei no apartamento dela, fiquei encantado com um quadro muito colorido que decorava a sala, pendurado sobre o sofá branco. A cor predominante é o vermelho, mas destacam-se o amarelo, o laranja e o rosa. O único objeto representado é um carro antigo, anos 50, que está em movimento acionado pelas cores que o compõem - todo o quadro está em movimento provocado pela explosão de cores e a massa de tinta em palhetadas ondulantes. Acertei de imediato que se tratava de uma pintura de Rubens Gerchman, porque sempre o admirei e me deleitei com seu estilo de poética Pop (retirei o quadro da parede e vi a assinatura do pintor na parte de trás).
Rubens Gerchman faleceu às seis horas da manhã de hoje, coincidindo com outra pequena-grande-particular perda.
Rubens Gerchman faleceu às seis horas da manhã de hoje, coincidindo com outra pequena-grande-particular perda.
Origami
Estou com um bebê no colo – um menino rosado e lourinho –, olhando pela janela de um apartamento que fica num andar muito alto. Ao meu lado, minha mãe. O bebê sai do meu colo para brincar no parapeito da janela e cai. Desesperado, consigo agarrar o bebê pela roupa; olho para minha mãe e peço ajuda, mas ela simplesmente não se mexe. Consigo salvar a criança e vou com ele ao chão, abraçando-a com firmeza e cuidado, acariciando sua cabecinha, olhando bem nos seus olhos e dizendo: “Está tudo bem, está tudo bem”. Pergunto a minha mãe por que ela não me ajudou, mas, sem dizer uma palavra, compreendo qual a sua intenção: fazer o bebê perceber que parapeito não é lugar para se brincar.
Agora estou num espaço aberto, um campo, perfeito para piqueniques. Estão presentes, além de minha mãe, meu irmão Marcelo – mais novo do que ele é hoje em dia –, minhas irmãs, Mônica e Liana, e Edson, marido de Mônica. Edson e eu estamos brincando com uma gaivota que ele fez para mim. Há também um carro branco, que pertence a Edson, com dois origamis em forma de pássaro presos na lateral do carro: um rosa, de Mônica, e outro feito de jornal, de Edson. Este último parece estar meio rasgado e emendado com fita durex. Num dado momento, a gaivota pára longe, perto do bebê, que está começando a aprender a andar. Há um cachorro por perto, que parece pertencer a algum de nós. Mostro para meu irmão que vou fazer com que o cachorro pegue a gaivota para mim e lhe dou uma ordem: “Pega”. Mas o cão entende que é para avançar no bebê e rosna para ele. Consigo fazer o animal entender que não é para machucar a criança, tanto que em seguida aparece um outro cachorro ameaçando o pequenino e o nosso cão lhe morde a perna.
Agora estou num espaço aberto, um campo, perfeito para piqueniques. Estão presentes, além de minha mãe, meu irmão Marcelo – mais novo do que ele é hoje em dia –, minhas irmãs, Mônica e Liana, e Edson, marido de Mônica. Edson e eu estamos brincando com uma gaivota que ele fez para mim. Há também um carro branco, que pertence a Edson, com dois origamis em forma de pássaro presos na lateral do carro: um rosa, de Mônica, e outro feito de jornal, de Edson. Este último parece estar meio rasgado e emendado com fita durex. Num dado momento, a gaivota pára longe, perto do bebê, que está começando a aprender a andar. Há um cachorro por perto, que parece pertencer a algum de nós. Mostro para meu irmão que vou fazer com que o cachorro pegue a gaivota para mim e lhe dou uma ordem: “Pega”. Mas o cão entende que é para avançar no bebê e rosna para ele. Consigo fazer o animal entender que não é para machucar a criança, tanto que em seguida aparece um outro cachorro ameaçando o pequenino e o nosso cão lhe morde a perna.
quarta-feira, dezembro 19, 2007
Perspectiva
Ela me aprisionou. E não somente porque minha respiração, meus humores e as batidas do meu coração agora dependem das fases da lua de seu signo – o que já seria motivo suficiente para o uso tópico de terapias, álcool, religiões e outras drogas pesadas. Ela me aprisionou o olhar, estou sob sua perspectiva, a mercê dos seus gostos, em função das suas opiniões: o vinho com a carne, o sapato com a meia, a barba por fazer, o modelo de óculos escuros, o filme, a peça de teatro, o grupo de rock, os temperos da salada... E mais: a beleza de certos corpos, a vulgaridade de certas mulheres, a falta de bares especializados em drinks no Rio de Janeiro e a importância de um pouco de água do pote de azeitona na preparação de um bom martini.
Penso em me despedir gentilmente e sair de sua vida, ou desaparecer à francesa, mas são só pensamentos que nada mais fazem alem de me corroer na madrugada. Diante dela, tais pensamentos são mais inofensivos que um poodle.
Mas há um lobo adormecido, eu não me engano. Ontem mesmo senti uma de suas unhas me arranhar o estômago.
Penso em me despedir gentilmente e sair de sua vida, ou desaparecer à francesa, mas são só pensamentos que nada mais fazem alem de me corroer na madrugada. Diante dela, tais pensamentos são mais inofensivos que um poodle.
Mas há um lobo adormecido, eu não me engano. Ontem mesmo senti uma de suas unhas me arranhar o estômago.
sexta-feira, dezembro 14, 2007
Fotografia
Debaixo de uma chuva constante; num bairro residencial; numa rua de pouco movimento; ia um homem numa bicicleta.
Na garupa, uma menina em roupa de escola, segurando um guarda-chuva preto. Agarrada à cintura do homem, a menina mantinha o guarda-chuva mais para a cabeça dele do que para seu próprio corpinho magro, que assim, não só recebia as gotas de lama atirados pela roda traseira da bicicleta, como também as muitas gotas que vinham do céu.
Agarrada à cintura do homem, com o rosto colado em suas costas, a menina sorria.
Na garupa, uma menina em roupa de escola, segurando um guarda-chuva preto. Agarrada à cintura do homem, a menina mantinha o guarda-chuva mais para a cabeça dele do que para seu próprio corpinho magro, que assim, não só recebia as gotas de lama atirados pela roda traseira da bicicleta, como também as muitas gotas que vinham do céu.
Agarrada à cintura do homem, com o rosto colado em suas costas, a menina sorria.
sábado, novembro 17, 2007
Fios de lembrança
Por um lado, não era muito o que lhe havia ficado daquela noite. O ambiente era muito escuro, como a maioria das boates e demais casas noturnas; a música era barulhenta, o som estava desnecessariamente alto e os amplificadores estavam em péssimo estado. Assim, o rosto daquele homem não lhe foi possível fixar; nem o timbre de sua voz e nem as palavras que aquela boca pronunciaram ao pé de seu ouvido. Os beijos foram os melhores de sua vida, mas não recordava se os lábios dele eram finos ou bem delineados. Seus olhos ardiam como brasa, mas de cor eram? E a cor da pele? E a quantidade de pelos nos braços? A barriga era firme, mas o umbigo era pequeno e produndo como o seu? Qual o tamanho do seu pé? As unhas eram aparadas?
Quando ele pôs a mão gentilmente dentro de sua calcinha, ela pode perceber os dedos grossos e a pele fina; quando ela pôs a mão dentro das calças dele, sentiu um pau latejante, quente e um pouco melado. Mas e o cheiro? E o gosto? O peso? Tamanho? De tudo...
Por que, Deus, teve que sair, ir embora, se afastar e ver sumir aquele encontro como o violento despertar de um sonho?
...
Sentada no banco do metrô, ela olhava para todos os homens que entravam e saíam. Olhava também os que permaneciam dentro, sentados, em pé ou escorados. E curiosamente lhe surgiu uma certeza: ninguém tinha cabelos tão bonitos.
Quando ele pôs a mão gentilmente dentro de sua calcinha, ela pode perceber os dedos grossos e a pele fina; quando ela pôs a mão dentro das calças dele, sentiu um pau latejante, quente e um pouco melado. Mas e o cheiro? E o gosto? O peso? Tamanho? De tudo...
Por que, Deus, teve que sair, ir embora, se afastar e ver sumir aquele encontro como o violento despertar de um sonho?
...
Sentada no banco do metrô, ela olhava para todos os homens que entravam e saíam. Olhava também os que permaneciam dentro, sentados, em pé ou escorados. E curiosamente lhe surgiu uma certeza: ninguém tinha cabelos tão bonitos.
quinta-feira, novembro 08, 2007
Letra para um Blues
Quando tudo começa
Você toca um pouco
Você toca um vez
E você toca mais
No lugar onde as cordes batem
Forma um calo
Uma pele grossa na ponta dos dedos
Nesse lugar forma um calo
E é quando tudo começa
É quando tudo realmente começa
Você ama um pouco
Você ama uma vez
E você ama mais
No lugar onde o amor bate
Forma um calo
Uma pele grossa que envolve o coração
Nesse lugar forma um calo
E é quando tudo começa
É quando tudo realmente começa
Você toca um pouco
Você toca um vez
E você toca mais
No lugar onde as cordes batem
Forma um calo
Uma pele grossa na ponta dos dedos
Nesse lugar forma um calo
E é quando tudo começa
É quando tudo realmente começa
Você ama um pouco
Você ama uma vez
E você ama mais
No lugar onde o amor bate
Forma um calo
Uma pele grossa que envolve o coração
Nesse lugar forma um calo
E é quando tudo começa
É quando tudo realmente começa
domingo, outubro 28, 2007
Notas sobre a psicobiologia dos peixes
1. Um aquário sobre a mesa
Um pequeno aquário, com um único peixinho vermelho dentro.
2. O aquário cai no chão
Não está claro o que teria provocado a queda do aquário - alguém o teria empurrado? (a sala estava vazia) Um terremoto teria feito a mesa balançar? (terremoto no Rio de Janeiro?) Um vento? (todas as janelas estavam fechadas) O próprio peixinho teria empurrado o aquário fazendo uso de uma força indizível? (talvez a opção mais plausível)
3. O aquário espatifado
O chão molhado; cacos de vidro pra todos os lados; o peixinho agonizando, agonizando, agoni...
- A situação do peixe era a seguinte: ele vivia fora de seu habitat natural, confinado num espaço mínimo, desumano (os pássaros engaiolados sabem do que estou falando), alimentado com uma ração barata pela empregada da casa, que não tinha obrigação de entender nada sobre peixes. A criança que o ganhara há muito que não se interessava mais por ele, e os outros habitantes da casa nunca se interessaram mesmo.
Se foi a casualidade que derrubou o aquário da mesa, pode-se dizer que o destino não fez mais que selar a sorte daquele triste animal, contribuindo, por assim dizer, para o fim mais rápido de sua medíocre existência. Se foi o próprio peixinho que, com força indizível, derrubou o aquário, podemos especular que ele o fez por dois motivos prováveis:
a) Para encerrar, ele mesmo, com sua agonia de vivente sem sentido;
b) Acreditando que, ao quebrar o aquário, ele estaria livre para fugir daquela vida.
Em ambos os casos, devemos considerar o esforço, o engenho e a coragem do peixinho. Afinal, quem já ouviu falar de um peixe que tenha derrubado o próprio aquário da mesa? A diferença entre a primeira e a segunda opção está na intenção, sem dúvida, mas também no maior ou menor grau de conhecimento que o peixe teria sobre sua própria natureza. Ter empurrado o aquário para cometer suicídio mostraria que o peixe sabia das consequências de seu ato. Mas se ele empurrou o aquário com o intuito de se libertar, significa um desconhecimento de si mesmo, total ignorância de sua natureza, de suas limitações. Porque, nesse caso, o peixe não saberia que, quebrando o aquário, ele expulsaria e espalharia o meio aquoso necessário a sua sobrevivência ("Quebrar o aquário", ele teria pensado, "romper as cercas que me aprisionam, desfazer os limites". E morreu).
4. A criança chega ao local da tragédia
Num ato de lamento e compaixão, a menina dona do peixe recolhe o bichinho do chão. Quer dar a ele um enterro digno, com caixão de pote de margarina (ainda está cheio, mas a mãe vai entender que foi por uma boa causa), cruz de palito de sorvete (terá que tomar dois sorvetes de uma vez, mas é pelo peixinho) e vela de bolo de aniversário (seu aniversário foi há poucas semanas atrás).
5. O gato da menina
Um dos motivos que explicam o desinteresse da menina pelo peixe é que ela ganhou um gato de presente de aniversário.
6. A menina decide brincar com seu gato
Peixe é bonito, mas não dá pra brincar com ele. Isso também explica o desinsteresse da menina. Gato é bonito, dá pra brincar, passar a mão... (uma vez, ela quis tirar o peixinho do aquário pra passa os dedos pelo seu corpinho. O pai chegou bem na hora em que a meina estava tentando catar o bicho da água. Mas agora, pensando bem, se o pai tivesse chegado na sala um pouco depois, com o peixinho já fora do aquário, na mão da menina, o pobre animal teria percebido que fora do meio aquoso ele não conseguiria respirar. Isso teria feito com que ele desistisse da idéia de empurrar o aquário - claro, supondo que foi ele quem empurrou a bolota de vidro e pelo motivo "b", ou seja, para ver-se livre). Ela não vai nunca deixar de brincar e de cuidar de seu gatinho, isso ela jurou para seu pai e foi assim que o convenceu a comprar o bichano.
7. O gato come o peixe
A brincadeira da menina com o gato foi assim: "Tóoum, dúvido que você pegue esse peixinho com a boca. Du-vi-de-o-dó!" E atirou o peixe na cara do gato. Depois de piscar cinquenta vezes com o olho direito - onde a cabeça do peixe bateu - Tom deu uma cheirada no cadáver e o engoliu, não sem antes dar umas boas mastigadas.
O peixe já estava morto mesmo. E o gatinho parecia faminto. Ela estava a caminho do enterro, mas... Ah, peixe não tem alma. Ou tem?
8. A mulher no divã
A mulher conta ao analista um fato curioso de sua infância, quando certa vez seu aquário despencou, sozinho, da mesa da sala. "Peixe tem alma?", ela pergunta ao analista. "Só Deus sabe", ele responde brincando (é um analista muito bem humorado, diga-se de passagem).
Um pequeno aquário, com um único peixinho vermelho dentro.
2. O aquário cai no chão
Não está claro o que teria provocado a queda do aquário - alguém o teria empurrado? (a sala estava vazia) Um terremoto teria feito a mesa balançar? (terremoto no Rio de Janeiro?) Um vento? (todas as janelas estavam fechadas) O próprio peixinho teria empurrado o aquário fazendo uso de uma força indizível? (talvez a opção mais plausível)
3. O aquário espatifado
O chão molhado; cacos de vidro pra todos os lados; o peixinho agonizando, agonizando, agoni...
- A situação do peixe era a seguinte: ele vivia fora de seu habitat natural, confinado num espaço mínimo, desumano (os pássaros engaiolados sabem do que estou falando), alimentado com uma ração barata pela empregada da casa, que não tinha obrigação de entender nada sobre peixes. A criança que o ganhara há muito que não se interessava mais por ele, e os outros habitantes da casa nunca se interessaram mesmo.
Se foi a casualidade que derrubou o aquário da mesa, pode-se dizer que o destino não fez mais que selar a sorte daquele triste animal, contribuindo, por assim dizer, para o fim mais rápido de sua medíocre existência. Se foi o próprio peixinho que, com força indizível, derrubou o aquário, podemos especular que ele o fez por dois motivos prováveis:
a) Para encerrar, ele mesmo, com sua agonia de vivente sem sentido;
b) Acreditando que, ao quebrar o aquário, ele estaria livre para fugir daquela vida.
Em ambos os casos, devemos considerar o esforço, o engenho e a coragem do peixinho. Afinal, quem já ouviu falar de um peixe que tenha derrubado o próprio aquário da mesa? A diferença entre a primeira e a segunda opção está na intenção, sem dúvida, mas também no maior ou menor grau de conhecimento que o peixe teria sobre sua própria natureza. Ter empurrado o aquário para cometer suicídio mostraria que o peixe sabia das consequências de seu ato. Mas se ele empurrou o aquário com o intuito de se libertar, significa um desconhecimento de si mesmo, total ignorância de sua natureza, de suas limitações. Porque, nesse caso, o peixe não saberia que, quebrando o aquário, ele expulsaria e espalharia o meio aquoso necessário a sua sobrevivência ("Quebrar o aquário", ele teria pensado, "romper as cercas que me aprisionam, desfazer os limites". E morreu).
4. A criança chega ao local da tragédia
Num ato de lamento e compaixão, a menina dona do peixe recolhe o bichinho do chão. Quer dar a ele um enterro digno, com caixão de pote de margarina (ainda está cheio, mas a mãe vai entender que foi por uma boa causa), cruz de palito de sorvete (terá que tomar dois sorvetes de uma vez, mas é pelo peixinho) e vela de bolo de aniversário (seu aniversário foi há poucas semanas atrás).
5. O gato da menina
Um dos motivos que explicam o desinteresse da menina pelo peixe é que ela ganhou um gato de presente de aniversário.
6. A menina decide brincar com seu gato
Peixe é bonito, mas não dá pra brincar com ele. Isso também explica o desinsteresse da menina. Gato é bonito, dá pra brincar, passar a mão... (uma vez, ela quis tirar o peixinho do aquário pra passa os dedos pelo seu corpinho. O pai chegou bem na hora em que a meina estava tentando catar o bicho da água. Mas agora, pensando bem, se o pai tivesse chegado na sala um pouco depois, com o peixinho já fora do aquário, na mão da menina, o pobre animal teria percebido que fora do meio aquoso ele não conseguiria respirar. Isso teria feito com que ele desistisse da idéia de empurrar o aquário - claro, supondo que foi ele quem empurrou a bolota de vidro e pelo motivo "b", ou seja, para ver-se livre). Ela não vai nunca deixar de brincar e de cuidar de seu gatinho, isso ela jurou para seu pai e foi assim que o convenceu a comprar o bichano.
7. O gato come o peixe
A brincadeira da menina com o gato foi assim: "Tóoum, dúvido que você pegue esse peixinho com a boca. Du-vi-de-o-dó!" E atirou o peixe na cara do gato. Depois de piscar cinquenta vezes com o olho direito - onde a cabeça do peixe bateu - Tom deu uma cheirada no cadáver e o engoliu, não sem antes dar umas boas mastigadas.
O peixe já estava morto mesmo. E o gatinho parecia faminto. Ela estava a caminho do enterro, mas... Ah, peixe não tem alma. Ou tem?
8. A mulher no divã
A mulher conta ao analista um fato curioso de sua infância, quando certa vez seu aquário despencou, sozinho, da mesa da sala. "Peixe tem alma?", ela pergunta ao analista. "Só Deus sabe", ele responde brincando (é um analista muito bem humorado, diga-se de passagem).
Diferença entre os gêneros
Os homens olham pra bunda das outras mulhers
Como garotos
As mulheres trepam com outros homens
Como mulheres
Como garotos
As mulheres trepam com outros homens
Como mulheres
sábado, outubro 27, 2007
sexta-feira, outubro 26, 2007
(H)a fonte (?)
Nenhuma dor é comparável
Nenhum amor é desprezível
Nenhum dom deve ser desacreditado
Nenhum pedido de socorro
De matrimônio
Oxigênio
(A flor, alí, dançava sozinha e feliz porque o sol, uma nesga de sol, um único raio de sol, banhava um pedaço de uma de suas menores pétalas)
O gênio dos imbecis
A força do manco
O troco do fraco
O sorriso débil do condenado à morte
(O que há por trás do mais perdido dos olhares?)
Existe uma fonte, crêem alguns
Outros simplesmente não pensam nisso
Não pensam em nada
E se dizem felizes
Nenhum amor é desprezível
Nenhum dom deve ser desacreditado
Nenhum pedido de socorro
De matrimônio
Oxigênio
(A flor, alí, dançava sozinha e feliz porque o sol, uma nesga de sol, um único raio de sol, banhava um pedaço de uma de suas menores pétalas)
O gênio dos imbecis
A força do manco
O troco do fraco
O sorriso débil do condenado à morte
(O que há por trás do mais perdido dos olhares?)
Existe uma fonte, crêem alguns
Outros simplesmente não pensam nisso
Não pensam em nada
E se dizem felizes
Não bastasse isso...
Cinco toneladas de terra despencaram na entrada do túnel Rebouças, em Laranjeiras, e o trânsito no Rio deu um nó. Não bastasse isso, chove incessantemente há dois dias e todo mundo sabe o que acontece com o Rio de Janeiro quando o tempo fecha desse jeito. Não bastasse isso, a preocupação de chegar no Santos Dumond na hora do vôo. Não bastasse isso, a dúvida se o vôo sairá no horário, a dúvida mesmo se o vôo sairá ainda hoje, porque todo mundo sabe o que acontece com os nossos aeroportos quando chove - e também quando faz o melhor dos climas. Não bastasse isso, a solidão que me acompanhou toda essa semana em que ela esteve longe, em São Paulo, trabalhando, se divertindo, conhecendo gente nova, revendo antigos amigos, lugares, janteares, música. Não bastasse isso, a angústia de seu telefone ter ficado desligado da meia noite às três da manhã de hoje, porque "arribou a bateria" e a impotência de não poder fazer nada além de reclamar, mas aceitar o argumento e o pedido de desculpas. Não bastasse isso, a dureza da minha analista me mostrando por a + b que eu tenho mais é que cuidar da minha vida e entender que não existem garantias de segurança absoluta, e que tudo o que eu posso fazer é confiar. Não bastasse isso, a certeza de que depois será minha vez de ter que ter a santa paciência de aturar crises de ciúmes que não farão, aos meus olhos, o menor sentido. Não bastasse isso, a forte impressão de que nada disso é de fato relevante ou interessante, de tão batido, dito, redito, por tanta gente, tantas vezes, em tantas épocas diferentes. Não bastasse isso, a constatação de que não há mais nada de original na face da terra, pois todas as pulsões do homem tiveram início e fim nas tragédias gregas, e que desde então ficamos a repetir e diluir tais pulsões em conteúdos e formas menores, medíocres na maioria das vezes. Não bastasse isso, a fraqueza diante do desejo de largar de vez tudo o que faz de mim um pequeno burguês para me lançar definitivamente numa vida mais vibrante, corajosa, selvagem. Não bastasse isso, o ridículo desta última frase. Não bastasse isso, a falta de sedativos, paliativos ou calmantes nessas duas horas em que tenho estado trancado nesse taxi, parado no trânsito do Rio a caminho do aeroporto.
PS: Não bastasse tudo isso, o vôo das 20h50 foi cancelado às 21h50. A Gol enviou os passageiros de ônibus até o Galeão de onde saiu um vôo depois de meia-noite. Desembarcamos em Guarulhos e não em Congonhas como estava previsto, porque este aeroporto fecha às 23h. Fomos mandados pela Gol de ônibus até Congonhas, de onde peguei um taxi e cheguei ao meu destino às três da manhã. Ela estava cansada, eu explodindo. Dormimos sem fazer amor.
PS: Não bastasse tudo isso, o vôo das 20h50 foi cancelado às 21h50. A Gol enviou os passageiros de ônibus até o Galeão de onde saiu um vôo depois de meia-noite. Desembarcamos em Guarulhos e não em Congonhas como estava previsto, porque este aeroporto fecha às 23h. Fomos mandados pela Gol de ônibus até Congonhas, de onde peguei um taxi e cheguei ao meu destino às três da manhã. Ela estava cansada, eu explodindo. Dormimos sem fazer amor.
terça-feira, outubro 16, 2007
Cinema europeu
- Acordei com muita raiva hoje, muita raiva. Tive um pesadelo: a gente tava num trem, numa cabine de trem, desses trens europeus. Nunca estive num, mas sei pelos filmes. Não lembro de onde a gente tava vindo, nem pra onde a gente tava indo, mas era dessas viagens que se atravessam países, com certeza. A gente tava bem vestido, com elegância e coisa e tal. A gente tava dividindo a cabine com um outro casal, tipo a gente, um casal jovem, os dois eram bonitos... Eles pareciam com a gente até - mesmo. O clima na cabine era bom, que dizer, o casal tava rindo, desconstraído, rolava até uma sensualidade, eles tavam se pegando, se beijando, falando umas coisas bem baixinho, risinho na cara. Eu tava meio incomodado com aquilo, a gente tava muito perto deles, a cabine era meio pequena. Aí teve uma hora que o cara começou a dar uns beijos mais pesados na namorada, dava pra ver a língua dele passeando na boca dela, o batom borrando os dois... E de repente eu percebi que o cara tava olhando pra você! Ele olhava pra você enquanto beijava a namorada! Te olhava com os olhos apertados, sabe, fazendo a maior pose de galã o filho da puta. Aí eu olhei pra você e percebi que você também tava olhando pro cara, com um sorrisinho no canto da boca, você tava gostando daquilo, vocês dois tavam flertando bem debaixo do meu nariz! Eu te peguei pelo braço, falei qualquer coisa com certa raiva, mas você nem me ouviu; levantou e foi andando em direção ao cara, lentamente, respirando forte... Ai eu acordei... Com uma vontade imensa de enfiar a mão na sua cara...
- E a mulher?
- Que mulher?
- Do cara.
- O que é que tem?
- Ela olhou pra você?
- Sei lá. Quer dizer... Acho que sim, não lembro direito...
- Provavelmente ela flertou com você também.
- Sabe que agora que você tá falando isso... É verdade, ela tava me olhando também - cacete!
- Quê?
- Agora eu lembrei de tudo: quando você se levantou pra ir pra perto do cara, ela abriu a blusa e me mostrou os peitos!
- Eram bonitos?
- Lindos...
- E você não fez nada?
- Não, eu tava puto da vida com você.
- Que pena. Teria sido um sonho, não um pesadelo.
Ela se vira para o lado e volta a dormir.
- E a mulher?
- Que mulher?
- Do cara.
- O que é que tem?
- Ela olhou pra você?
- Sei lá. Quer dizer... Acho que sim, não lembro direito...
- Provavelmente ela flertou com você também.
- Sabe que agora que você tá falando isso... É verdade, ela tava me olhando também - cacete!
- Quê?
- Agora eu lembrei de tudo: quando você se levantou pra ir pra perto do cara, ela abriu a blusa e me mostrou os peitos!
- Eram bonitos?
- Lindos...
- E você não fez nada?
- Não, eu tava puto da vida com você.
- Que pena. Teria sido um sonho, não um pesadelo.
Ela se vira para o lado e volta a dormir.
domingo, outubro 07, 2007
Lista de Compras
Preciso seguir em frente:
Para o alto e avante.
Mesmo que só agora,
Levantando os braços,
Eu perceba
Que acabou o desodorante!
Para o alto e avante.
Mesmo que só agora,
Levantando os braços,
Eu perceba
Que acabou o desodorante!
terça-feira, outubro 02, 2007
Trepada de Elite
Homem de preto
Qual é sua missão?
É invadir favela
E deixar corpo no chão
Pra quem não pescou, essa é a canção que os soldados do Bope cantam enquanto fazem seus exercícios matinais (isso eu li na coluna do Zuenir Ventura, mas como eu servi o Exército, sei bem que essas musiquinhas são variações do mesmo tema).
Quer dizer, o recado está dado. E está explicado também porque o Luciano Huck desabafou "Chamem a Tropa de Elite" quando foi assaltado em São Paulo. Porque se os homens de preto sobem favela e deixam corpo no chão, no fundo eles são a Tropa DA Elite.
Outro dia, num almoço de domingão, meu sobrinho perguntou: "Tio, você já viu Trepada de Elite?" Minha irmã conteve o riso e repreendeu o menino com severidade. Mas peraí? Por que as crianças podem brincar nas portas das escolas gritando:? "É faca na caveira! É faca na caveira!" - como eu vi anteontem no Humaitá -, mas não podem brincar falando Trepada de Elite? Trepada é melhor, tem humor e lembra o bom e velho slogam "Faça amor, não faça a guerra". Seria ótimo se, ao invés de uma Tropa DA Elite, nós tivéssemos o luxuoso auxílio de uma Trepada de Elite. Daí a música dos soldados seria:
Homem de preto
Qual é sua missão?
É beijar na boca
E fazer amor no chão.
Qual é sua missão?
É invadir favela
E deixar corpo no chão
Pra quem não pescou, essa é a canção que os soldados do Bope cantam enquanto fazem seus exercícios matinais (isso eu li na coluna do Zuenir Ventura, mas como eu servi o Exército, sei bem que essas musiquinhas são variações do mesmo tema).
Quer dizer, o recado está dado. E está explicado também porque o Luciano Huck desabafou "Chamem a Tropa de Elite" quando foi assaltado em São Paulo. Porque se os homens de preto sobem favela e deixam corpo no chão, no fundo eles são a Tropa DA Elite.
Outro dia, num almoço de domingão, meu sobrinho perguntou: "Tio, você já viu Trepada de Elite?" Minha irmã conteve o riso e repreendeu o menino com severidade. Mas peraí? Por que as crianças podem brincar nas portas das escolas gritando:? "É faca na caveira! É faca na caveira!" - como eu vi anteontem no Humaitá -, mas não podem brincar falando Trepada de Elite? Trepada é melhor, tem humor e lembra o bom e velho slogam "Faça amor, não faça a guerra". Seria ótimo se, ao invés de uma Tropa DA Elite, nós tivéssemos o luxuoso auxílio de uma Trepada de Elite. Daí a música dos soldados seria:
Homem de preto
Qual é sua missão?
É beijar na boca
E fazer amor no chão.
quarta-feira, setembro 26, 2007
Geografia do Leblon - II
Fui ao Letras & Expressões comprar o Le Monde Diplomatique Brasil. Custou 8,90. Depois atravessei a Rua e entrei no Garcia & Rodrigues para comprar uma fatia da famosa Torta Isabella. Custou 8,90.
Simetrias que não se explicam.
Simetrias que não se explicam.
Ponte aérea 02
Em agosto do ano passado, escrevi uma postagem intitulada "Ponte aérea 01" e justifiquei o nome dizendo que muitas seriam as postagem tratado do mesmo assunto: a minha ida para São Paulo. Um ano depois, ainda estou no Rio e esta é apenas minha segunda postagem sobre o tema.
Todo mês acontece o TrixMix Cabaret - um teatro de variedades - no Café Concerto Uranus, um lugar belíssimo no Centro da cidade administrado por uma "senhora" uruguaia chamada Carlitos. O espaço já cria, por si só, um ambiente de irrealidade com suas mesas e cadeiras, bar e palco. A decoração feita de quadros, esculturas, velas, tecidos e até um chafariz, faz com que nos sintamos dentro de um filme do David Lynch (quem não se lembra do Clube Silêncio de "Mulholland Drive"?)
Se alguém souber de um lugar parecido no Rio, ou de uma proposta que se assemelhe a um teatro de variedades, favor me avisar. Tenho fome. E sede.
Todo mês acontece o TrixMix Cabaret - um teatro de variedades - no Café Concerto Uranus, um lugar belíssimo no Centro da cidade administrado por uma "senhora" uruguaia chamada Carlitos. O espaço já cria, por si só, um ambiente de irrealidade com suas mesas e cadeiras, bar e palco. A decoração feita de quadros, esculturas, velas, tecidos e até um chafariz, faz com que nos sintamos dentro de um filme do David Lynch (quem não se lembra do Clube Silêncio de "Mulholland Drive"?)
Se alguém souber de um lugar parecido no Rio, ou de uma proposta que se assemelhe a um teatro de variedades, favor me avisar. Tenho fome. E sede.
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